segunda-feira, 29 de julho de 2013

Más notícias sobre a qualidade da gestão em Portugal

A qualidade de uma economia parece depender da qualidade das práticas de gestão disseminadas pelas suas empresas. 
 
A investigação sobre o caso português vem revelando, de forma consistente, que as boas práticas de gestão estão longe de fazer parte do dia-a-dia de muitas organizações. 
 
Um estudo acabado de publicar num importante jornal americano, "Academy of Management Perspectives", traz más notícias sobre a qualidade da gestão em Portugal. O texto, com o título "Management practices across firms and countries", é parte de um projecto mais vasto que vem analisando a importância da gestão enquanto tecnologia social. Os autores, liderados por Nicholas Bloom, de Stanford, propõem-se estudar as implicações, para as sociedades, da qualidade da gestão.

Este estudo resultou de 10 mil entrevistas com gestores de empresas de vinte países, incluindo Portugal. Os autores identificaram um conjunto de dezoito técnicas de gestão e analisaram a qualidade da respetiva execução nos países indicados. Os resultados não são animadores nem surpreendentes. Eis algumas conclusões salientes:

A qualidade da gestão nos EUA é superior à dos demais países. A qualidade gestionária é igualmente elevada em países como o Canadá, Alemanha, Japão, Suécia. É baixa nos países em desenvolvimento, como o Brasil, China e Índia. É igualmente baixa nos países do sul da Europa, nomeadamente em Portugal e na Grécia.

As organizações governamentais são mais propensas às más práticas de gestão. Nestas organizações, as promoções resultam mais da antiguidade que do mérito. Não apresentam mecanismos para requalificar ou afastar os trabalhadores com desempenhos persistentemente baixos.

O nível de educação quer dos gestores quer dos não-gestores está fortemente correlacionado com a qualidade da gestão.

A probabilidade de as práticas de gestão serem mais incipientes é maior nas empresas familiares geridas pela família e não por profissionais.

As multinacionais são melhor geridas, em regra, que as empresas nacionais.

A qualidade de uma economia parece depender da qualidade das práticas de gestão disseminadas pelas suas empresas. A investigação sobre o caso português vem revelando, de forma consistente, que as boas práticas de gestão estão longe de fazer parte do dia-a-dia de muitas organizações.

Em empresas e outras organizações, públicas e privadas, o saber de experiência feito substitui o conhecimento acumulado de forma sistemática pela investigação em gestão. O nepotismo é um critério seguro em muitos contextos. As falhas são combatidas com desculpas. A arte de desenrascar substitui a boa organização. As rotinas instalam-se e impedem as inovações de gestão, a capacidade de acrescentar ideias a produtos e processos que faz da Alemanha, na Europa, o mais sofisticado exemplo de excelência gestionária (vide Marsh, 2012).

Ler o texto de Bloom e seus colaboradores não é bom para o ego, mas seria disparatado ignorar trabalhos como este e deixar de usá-los como oportunidades para a reflexão e para a eliminação de vícios antigos.

in: jornal de negocios

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