sábado, 10 de janeiro de 2009

Marketing

Bem que a língua portuguesa tentou forjar um similar nacional: mercadologia e até mercadização são palavras dicionarizadas, mas de aplicação cada vez mais rara na vida real. O vocábulo importado diretamente do inglês, marketing, sem outra adaptação que não a do sotaque local, acabou prevalecendo de tal forma que suspirar hoje por seus sucedâneos fracassados seria tão cômico quanto lamentar que o futebol não se chame balípodo ou ludopédio.

Pois é mesmo no marketing e não no balípodo que, pelo menos até prova em contrário, Ronaldo Fenômeno continua sendo craque.

Segundo o Houaiss, a língua de Henry Ford viu nascer por volta de 1920 a moderna acepção de marketing, palavra que até então era apenas a forma nominal do verbo to market, “negociar”. Surgia a acepção de conjunto mais ou menos organizado de técnicas comerciais com foco fechado no consumidor, que desse modo deveria ser sondado por meio de pesquisas, bajulado por campanhas publicitárias e acompanhado no chamado “pós-venda”.

O mesmo dicionário registra a chegada do termo por aqui em torno de 1960. Hoje, quando não existe uma única área da atividade humana em que o marketing não se aplique, já há descendentes locais, como o termo (pejorativo) marqueteiro.

A raiz da palavra inglesa é idêntica à do nosso mercado: o latim mercatus, “comércio, negócio”, que por sua vez saiu do verbo mercare, “negociar”. E por que, se tem DNA latino, o marketing resistiu a ser traduzido? A resposta não é simples, e provavelmente inclui em algum momento o reconhecimento de que, para a cultura portuguesa contemporânea, qualquer coffee break será sempre aguardado com mais ansiedade que uma simples pausa para o café.

Por que os shopping centers nunca emplacaram como centros comerciais? Talvez porque dessa forma vendam mais. No fundo, uma questão de marketing.


Publicado na “Revista da Semana”.

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